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A disparada do mercado de carros novos

Por que a indústria automobilística vem tendo resultados de crescimento bem acima do Produto Interno Bruto? Em 2006, o setor deu um salto de 12% em vendas, enquanto o PIB deve registrar uma elevação de 2,7% no mesmo período. André Beer, que já comandou a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) em duas gestões nos anos 80 e foi vice-presidente da General Motors do Brasil por 18 anos, tem várias explicações para a disparada no mercado de carros novos.

“Demanda reprimida, economia relativamente estabilizada e uma maior massa de dinheiro ajudam a explicar a aceleração das vendas”, enumera Beer, que comanda a André Beer Consult & Associados desde que deixou a GM, onde ficou por 48 anos. Ele ainda aponta as promoções das montadoras, o alongamento dos prazos de financiamento e a chegada do carro flex como fatores de incentivo à compra do veículo zero quilômetro. Para Beer, o mercado vai continuar com boas taxas de crescimento nos próximos anos, pois o “carro ainda é no Brasil objeto de grande desejo.”

Mas faz um alerta aos homens que comandam a indústria nacional contra a competição predatória que chineses e indianos tentarão no mercado local nos próximos anos. “Se usarem a inteligência, produzindo cada vez mais carros com preços competitivos, robustos e desejados, a indústria nacional conseguirá competir contra as incursões predatórias”, disse Beer, que é especialista em estratégia de marketing, vendas, relações governamentais, implantações de fábricas, entre outros assuntos.

GAZETA MERCANTIL – Por que a indústria automobilística vem apresentando resultados bem acima de outros segmentos da economia?

André Beer – A demanda reprimida, a relativa estabilidade da economia, uma maior massa de recursos, custos financeiros reduzidos, com financiamentos mais longos, promoções e a chegada do carro flex, na minha opinião, impulsionam as vendas nos últimos anos. O mercado brasileiro, em relação a outros países, ainda tem muito a crescer. Veja, a Argentina tem uma relação de um automóvel para cada 5,5 habitantes. No México, que tem uma economia semelhante a nossa, a relação é de um carro para seis pessoas. Se quisermos comparar com os Estados Unidos, aí ficamos muito distantes – lá é um carro para cada 1,5 habitante. Aqui, onde temos uma frota de 20 milhões de veículos de passeio, existe um carro para cada grupo de 8,5 pessoas.

GZM – Qual a sua previsão para o crescimento das vendas neste ano?

Beer – O mercado crescerá pelo menos 10%. As vendas podem somar 2,100 milhões de carros e comerciais leves. Neste mês de janeiro, as vendas tiveram aumento de 15% sobre o mesmo período do ano passado. Para mim, estes dados refletem uma estabilidade no ritmo de crescimento, o que é bom para o planejamento da indústria. Eventuais gargalos podem ser reduzidos, suprindo a demanda de um ou outro modelo mais procurado no mercado.

GZM – A indústria está preparada para atender esta demanda crescente?

Beer – Sim. O Brasil tem capacidade instalada para produzir 3 milhões de unidades por ano. No ano passado, a produção foi de 2,4 milhões de carros montados, mais 200 mil desmontados (CKD). Então, ainda há um espaço para atender a demanda. Com o crescimento do mercado, a maioria, senão todas as empresas do setor conseguiram atingir lucro, o que é muito saudável para atração de novos investimentos na produção. Algumas empresas ainda fizeram uma reestruturação, eliminando excesso de contingente, desperdícios e partiram para a modernização da produção para concorrer num mundo cada vez mais global e competitivo.

GZM – Na sua opinião, o setor automobilístico continuará tendo crescimento acima de outras indústrias?

Beer – Veja, em economias cada vez globais, o movimento nunca é uniforme. Em determinados períodos, os eletroeletrônicos crescem mais. Em outros tempos, os semiduráveis se destacam. Particularmente agora, a indústria automobilística, que envolve muito a confiança do consumidor na economia, não enfrenta os problemas econômicos que tivemos no passado, como inflação, controle de preços, falta de produtos… Neste ambiente, ainda temos a estabilidade de impostos, como o IPVA, que antigamente subia de valor todo o ano, as tarifas de pedágio também tendem a se estabilizar. Também a tendência é de que o preço do combustível, com a entrada do flex, também não sofra aumentos, a não ser em períodos sazonais com a produção do álcool. Mas a tecnologia esta aí para calibrar o mercado.

GZM – O carro não é muito caro no Brasil? Alguns chegam a custar o preço de um apartamento.

Beer – Sempre foi assim. Em 1958, eu vendi um carro por 600 mil cruzeiros, juntei mais 100 mil cruzeiros e comprei uma casa. Mas o preço do carro no Brasil ainda é competitivo. Levando-se em conta um real a US$ 2,50, que seria o justo se a nossa moeda não estivesse valorizada, teríamos um carro popular por US$ 8 mil. Se descontarmos aí a carga de impostos, sem dúvida produzimos um carro competitivo.

GZM – Qual o futuro do carro flex?

Beer – A tecnologia, é claro, chegou para ficar. Mas a indústria ainda tem um desafio, que é achar uma taxa de compressão que dê mais economia de combustível. Aumentar a performance destes motores bicombustíveis é um belo desafio.

GZM – O senhor não acha que a indústria automobilística deveria estar preocupada com a melhoria da infra-estrutura, já que o carro não roda nas nuvens e o Brasil tem cada vez menos boas estradas e até ruas?

Beer – Temos de lembrar que o carro brasileiro já é feito para condições adversas. A suspensão de um carro feito aqui é bem mais reforçada que a de um carro construído nos Estados Unidos ou na Europa, por exemplo. O carro brasileiro também já é mais alto para enfrentar os buracos. Mas claro que só isso não basta. Eu tenho confiança que a infra-estrutura do Brasil vai melhorar com o crescimento gradual da economia.

GZM – Qual são as perspectivas para a indústria automobilística nos próximos anos?

Beer – Desde os anos 90, com o Real e abertura do mercado, a indústria soube se renovar e apresentar produtos desejados pelo consumidor. Esta é a linha ser seguida, com os líderes empresariais sabendo apresentar produtos cada vez mais competitivos, com design em sintonia com o que de melhor é feito no mundo. Particularmente, aqui os comandantes da indústria local vão ter de usar a inteligência para combater incursões predatórias de fabricantes chineses e indianos. O carro brasileiro tem que ser atrativo, assim como é uma linda mulher para o homem.

Entrevista concedida a Wagner Oliveira