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A aposta brasileira na África

Valor Online

Por Luiz Inácio Lula da Silva


Acabo de voltar de minha sétima viagem à África, onde estive em Burkina Fasso, República do Congo, África do Sul e Angola. Desde 2003, visitei 19 países africanos, muitos dos quais nunca tinham recebido um chefe de Estado brasileiro.

Esse continente passa por profundas transformações. Quem se acostumou a só ver imagens trágicas de guerras, refugiados e miséria, ignora que países como Angola e República do Congo estão em franca trajetória de reconstrução nacional. Que Burkina Fasso, após processo de independência traumático, vem realizando eleições livres, conforme atestam observadores internacionais. Que a África do Sul superou a herança do "apartheid" e está construindo uma história de sucesso, no marco da consolidação democrática. Os países africanos avançam na integração econômica e comercial e estão engajados na pacificação de todo o continente.
Graças à crescente estabilidade política, a economia africana deverá crescer 6,2% este ano. A região atrai investimentos de todas as partes do mundo, interessados nos recursos naturais, na construção da infra-estrutura e em um mercado que se amplia.
O Brasil tem todas as condições de contribuir para esse "renascimento africano". Queremos superar o passado cruel da escravidão, que infelicitou-nos de um e de outro lado do Atlântico. Temos vínculos históricos. Somos étnica e culturalmente semelhantes. Precisamos reforçar o intercâmbio nas áreas da cultura e da educação. Por isso, em Burkina Fasso participei da inauguração de um festival de cinema brasileiro e, em Angola, anunciamos a disposição de receber mais bolsistas daquele país.
Hoje, desenvolvemos relações baseadas no interesse mútuo e na solidariedade. Por essa razão passamos a ter uma relação diferenciada com a África. Inauguramos 12 novas embaixadas na região em meu governo e o número de missões diplomáticas africanas em Brasília passou de 16 (em 2003) para 24.
No plano econômico, empreiteiras brasileiras participam em obras de infra-estrutura viária, urbana e energética em Angola, e tencionam voltar à República do Congo, onde já tiveram presença importante. Para facilitar esses investimentos, e estimular exportações de bens e serviços, ampliamos nossa capacidade de crédito para o comércio e os investimentos e criamos linhas especiais de financiamento a partir do perdão de dívidas bilaterais.
A Petrobras já está presente em sete países da região – Nigéria, Angola, Guiné Equatorial, Líbia, Tanzânia, Moçambique e Senegal -, trabalhando com empresas locais e estrangeiras na prospecção em águas profundas e no segmento de exploração e produção.
Prova de que vivemos momento novo nas relações com a África é a participação de empresa privada angolana na exploração de hidrocarbonetos no Brasil. A Somoil venceu disputa para explorar petróleo e gás na Bacia do Recôncavo, tornando-se a primeira empresa petrolífera angolana a trilhar o caminho da internacionalização.


Graças à crescente estabilidade política, a economia africana, que deve crescer 6,2% este ano, atrai investimentos


O comércio entre Brasil e África avança em ritmo impressionante. Triplicou, desde 2002, atingindo US$ 15,5 bilhões. Nesse mesmo período, as exportações brasileiras também se multiplicaram três vezes, passando, em 2006, a US$ 7,5 bilhões, a maioria de produtos industrializados. Para o Congo, cresceram 15 vezes. Para a África do Sul o aumento foi de 205%.
Agora, o objetivo é diversificar as exportações africanas ao Brasil, atualmente de baixo valor agregado e concentradas em número reduzido de produtos.
Os países africanos estão construindo suas soluções e caminhos. Dispensam receitas mágicas impostas de fora. Não querem o mero assistencialismo. A inauguração de escritório da Embrapa, em Gana, cria posto avançado de cooperação técnica em setores em que o Brasil detém reconhecida competência, como pesquisa agrícola. O mesmo vale para o combate a doenças infecciosas. Assim, vamos ajudar Burkina Fasso a modernizar sua cotonicultura e cooperar com os congoleses no combate à Aids e à malária. Em Moçambique, pretendemos construir fábrica de anti-retrovirais, que dará a pessoas em necessidade maior acesso a medicamentos vitais.
Enfatizei o potencial dos biocombustíveis para os países que visitei. Desde que respeitadas as características e realidades locais, o etanol e o biodiesel podem ser ferramentas de transformação econômica e social, gerando empregos e renda, ademais de ajudar no combate ao aquecimento global. No caso de alguns países que não dispõem de hidrocarbonetos, poderão constituir importante alternativa para a geração de energia. A participação desses países será decisiva para a criação de um verdadeiro mercado internacional para os biocombustíveis.
Fui à África com o objetivo de aprofundar nosso diálogo político. Numa época de desafios e ameaças globais, é fundamental encontrar soluções duradouras e eqüitativas que reflitam o interesse da maioria.
Queremos que as negociações multilaterais eliminem as distorções no comércio de produtos agrícolas praticadas pelos países desenvolvidos. Por isso, o Brasil ajudou a criar o G-20, que se transformou em interlocutor fundamental no processo negociador de Doha. Também por essa razão, o Brasil questionou, com êxito, em painel na OMC, práticas comerciais de países ricos que prejudicam fortemente a principal exportação de Burkina Fasso, o algodão.
Precisamos juntar nossas vozes nos foros internacionais. Caso contrário, decisões que nos afetam diretamente continuarão sendo tomadas à nossa revelia. Esse é o objetivo principal do Fórum Ibas (Índia, Brasil e África do Sul), que se reuniu agora em Pretória: buscar uma ordem mundial mais justa e digna para os países em desenvolvimento. Para lograr esses objetivos será necessário também reformar a ONU e seu Conselho de Segurança, que deverá contar com novos membros permanentes vindos da Ásia, África e América Latina.
Milhões de africanos trabalham para encontrar o caminho do desenvolvimento sustentável e eqüitativo. Essa é a África que visitei e a África na qual o Brasil aposta. É o continente com o qual nós, brasileiros, queremos cada vez cooperar para transformar afinidades e interesses comuns em benefícios concretos para nossos povos.
Luiz Inácio Lula da Silva é presidente do Brasil