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Um contador de histórias

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CRC-RS homenageia vida e obra do professor Olivio Koliver. Apaixonado por música, livros e números, ele deixou a vida para entrar na história da contabilidade brasileira

Lara Ely

Uma das grandes personalidades da contabilidade brasileira, o contador Olivio Koliver, recebe hoje uma homenagem póstuma do Conselho Regional de Contabilidade do Rio Grande do Sul (CRC-RS). O lançamento do livro Olivio Koliver: uma Vida Dedicada à Cultura e Profissão Contábil e a inauguração de um busto que ficará instalado no Centro de Cultura do CRC-RS fazem parte do evento solene que ocorre no Centro de Eventos São José do Hotel Plaza São Rafael, hoje, a partir das 17h, e que também marca a posse da nova diretoria.

Contador de exponencial atuação no Estado, País e na América Latina, Koliver não contribuiu apenas em termos de conhecimento técnico-científico para a categoria. A principal marca que imprimiu nas relações humanas e no trabalho era o respeito aos seus princípios, dentre os quais a ética, que estava sempre em primeiro plano. Entre outras características atribuídas a ele, estão a rica bagagem cultural, o carisma e a paixão pelos registros escritos.

Se as histórias eram lidas, escritas, faladas ou musicadas, pouco importava. O essencial, para ele, era ter um bom causo para contar e ouvir. Não se tratavam de quaisquer histórias, e sim conversas que agregassem valor às discussões da classe contábil, argumentos que elevassem as reflexões e pensamentos que associavam questões pragmáticas à teoria encontrada nos livros.

Foi com este espírito idealista, dividido entre ser contador, professor, líder, pai de família, viajante, leitor, escritor e palestrante, que o profissional marcou para sempre a história da contabilidade. Koliver, que faleceu no dia 29 de junho do ano passado, aos 72 anos, passou a abrilhantar ainda mais a memória daqueles que tiveram o privilégio de conhecê-lo.

Pela sua intensa atividade profissional (são 93 páginas de currículo apensado ao Projeto na Câmara Municipal, que prestará homenagem denominando uma rua de Porto Alegre com o seu nome), também entrou para a história como um dos mais destacados e premiados da classe.

Doutor de Ciências Contábeis, Koliver dominava diversos idiomas, e isso representava uma facilidade para lecionar em países estrangeiros. Filho do casal de alemães Willy e Johanna, nasceu em Porto Alegre no dia 12 de janeiro de 1937 e foi casado com a artista plástica Irma Mercedes, com quem teve três filhos.

O início de sua vida profissional se deu aos 17 anos, em uma empresa metalúrgica. Aos 21 anos, virou contador, e desde lá, uma longa jornada de cursos, prêmios, cargos políticos e viagens a trabalho preencheram sua vida no universo contábil. Entre as empresas para as quais trabalhou estão o Grupo Zivi-Hércules, Hotéis Continental e a Randon. Foi professor titular na Pucrs, Ufrgs, Unisinos e também lecionou na Bahia e na Argentina.

Uma paixão e 132 publicações

Koliver era um apaixonado em produzir textos, principalmente artigos, que foram veiculados em importantes periódicos sobre contabilidade. Além dos diversos livros que escreveu, a Revista do CRC-RS era uma das paixões da sua vida, tendo atuado no Conselho Editorial desde sua instituição, em 1972, e assumindo a sua coordenação, em 1976 até 2009.

Do número 1 ao 136, em que publicou seu último artigo, deixou apenas de participar de quatro edições, atingindo a impressionante marca de 132 artigos inéditos publicados. A publicação da entidade que será lançada hoje reúne todos os artigos do profissional, além de uma biografia, fotos e depoimentos sobre sua vida e carreira. Organizadora do livro, a bibliotecária Márcia Bohrer Ibañez, gerente de produções técnicas e informativas do CRC-RS, garante que além de ter sido uma pessoa importante na classe, Koliver foi um colaborador muito intenso da revista. “Ele sempre foi muito disponível e participativo. Todas as vezes que precisei falar com ele para resolver assuntos da revista, tive sua atenção. Era muito solícito aos chamamentos da classe”, diz.

Márcia considera que, por sua imensa capacidade intelectual e inteligência fora dos padrões, o contador era uma pessoa muito eclética, com interesses que iam além da sua área de atuação. “Koliver dominava vários assuntos. Ele conversava sobre história, arte, geografia. Sabia discutir sobre tudo, pois lia muito, sobretudo, livros de história”, afirma.

Não é a toa que seu nome foi dado ao centro cultural do conselho, em forma de homenagem. Como bom apreciador de livros, Koliver acumulou centenas de exemplares dos mais variados assuntos, incluindo obras técnicas de contabilidade. Alguns eram livros históricos, outros publicações estrangeiras trazidas das viagens. A paixão era tamanha que ele chegava a comprar bibliotecas de falecidos contadores. Agora, parte deste acervo foi doada por sua esposa, Irma, à biblioteca do conselho. “São dezenas de caixas que estão aguardando um novo espaço para ocuparem as prateleiras. O material ainda não foi avaliado, pois nos falta espaço físico”, afirma a bibliotecária.

Fiel escudeiro da categoria

Outro capítulo importante da vida de Koliver foi sua relação com as entidades de classe. Em 1974, foi eleito conselheiro do Conselho Regional de Contabilidade do Rio Grande do Sul (CRC-RS), cargo em que permaneceu até 1983, retornando nos anos de 1994 a 1997. No CRC-RS foi presidente por quatro gestões e atuou no Sindicato dos Contabilistas de Porto Alegre e no Instituto dos Auditores Independentes do Brasil, entidades que também chegou a presidir por mais de uma gestão.

De 1998 a 2001, foi conselheiro do Conselho Federal de Contabilidade. São de sua autoria as resoluções que dispõem sobre as prerrogativas profissionais (560-83), os princípios fundamentais de Contabilidade (750-93 e 774-94) e a conduta dos representantes do CFC em nível nacional e internacional (856-94). Koliver também colaborou ativamente na elaboração das normas relativas à educação continuada.

Quando estudou Ciências Contábeis e Atuariais na Pucrs, de 1961 até 1964, o vereador de Porto Alegre João Carlos Nedel (PP/RS) foi um dos alunos de Koliver. “Ele foi um dos meus melhores professores. Dialogava com os alunos e, para facilitar nosso entendimento, editava apostilas que inclusive se transformaram em livros”, lembra. Para Nedel, Koliver não deixou apenas uma marca de competência e inteligência, mas também um conceito de solidariedade e de amor à classe contábil.

Segundo o ex-presidente do CRC-RS, José João Appel Mattos, Koliver defendeu arduamente as prerrogativas dos profissionais da contabilidade. Entre as ações de destaque, estão a inserção da entidade na internet, a ampliação da biblioteca, aproximação com instituições de ensino, implementação dos escritórios regionais e da ouvidoria do conselho.

Suas ações na área contábil se estenderam além-fronteiras, tanto que recebeu, por três vezes, a premiação Roberto Casas Alatriste, da Associação Interamericana de Contabilidade, a mais alta distinção das Américas. Além disso, representou oficialmente o Brasil na Comissão de Investigação Contábil e na Comissão de Educação da Federação Internacional de Contadores.

Cultura em primeiro plano

Uma pessoa comunicativa, nascida para o mundo. Essa é a forma como a artista plástica Irma Koliver via o marido. Mesmo considerando um excelente companheiro e pai de família, o interesse pela cultura era uma prioridade que Koliver não escondia de ninguém. No escritório de sua casa, uma coleção com centenas de CDs revela outra paixão: a música. “Ele estava sempre com um livro na mão, adorava ouvir música clássica e era um apreciador da arte nas suas mais variadas expressões”, define.

Segundo Irma, a lealdade era o lema da vida de Koliver, tanto que um tema muito recorrente em seus artigos era a ética. Outra curiosidade era o seu interesse incomum pela língua portuguesa. “Para alguém que trabalhava com os números, ele sabia muito sobre o mundo das letras”, brinca, acrescentando que compreender o idioma nacional era uma verdadeira obsessão do marido.

Aficionado na busca pelo conhecimento, Koliver foi quem instaurou o exame de Suficiência Profissional na categoria, que é feito a cada três anos para medir os conhecimentos dos contadores. Ele foi orientador de teses de Doutorado e também um dos últimos integrantes da escola nacionalista de ciências contábeis, daqueles que lutavam pela independência da contabilidade brasileira. Quem afirma é o seu filho mais velho, Edward. “O pai acreditava que, através da contabilidade, podia-se trazer maior desenvolvimento social para o País, fomentando a economia e trazendo mais emprego. Na visão dele, não era preciso trazer o crescimento do exterior, e sim desenvolver soluções daqui”, afirma. E foi a partir dessa ótica brasileira, mas com visão de mundo, que Koliver escreveu dezenas de trabalhos. Recebeu três vezes o prêmio Roberto Casas Alatriste, a mais alta distinção contábil das Américas, e foi honrado com a Medalha do Mérito Contábil Senador João Lyra, a premiação mais importante da contabilidade brasileira. Recebeu ainda diversos prêmios fora do País, Uruguai, Paraguai e Peru – uma distinção merecida para quem acreditava e defendia que é preciso ter raiz nacional, mas ao mesmo tempo ser um cidadão do mundo.

Depoimentos

“Inequivocamente Koliver foi um dos colegas de maior cultura geral que conheci na classe contábil. Agora, ao saber que não mais terá presença física entre nós, reconheço o vazio que quanto a isto em todos nós deixa.” Antônio Lopes de Sá – Doutor em Ciências Contábeis

“Doutor, poliglota, historiador, declamador de poesias gauchescas, autor de inúmeros trabalhos científicos e artigos publicados, tive a satisfação em ser seu colega e amigo. Ele era um ferrenho debatedor, contestador e não poucas vezes contestado, que se manteve sempre fiel aos seus princípios.” Enory Luiz Spinelli – Ex-Presidente do CRCRS

“A contribuição de Koliver, seja como profissional ou quadro classista, avalia-se como expressão inestimável. Acima de tudo isso, foi como cientista que esse grande gaúcho soube honrar e projetar a Contabilidade brasileira, dentro e fora do País.” Maria Clara Cavalcante Bugarim – Vice-Presidente do CFC

“Conheço poucas pessoas tão lineares e disciplinadas que agem em benefícios dos outros. O negócio dele era fazer política de classe, criar conhecimento, de forma que ele pudesse receber um muito obrigado.” Edward Koliver – filho

COMENTÁRIO(S)

ANTONIO LOPES DE SÁ – 10/03/2010 – 08h56
Comovido associo-me às justas homenagens ao grande amigo e colega Koliver


Pedro Coelho Neto –
10/03/2010 – 10h25
Emocionou-me ler o artigo sobre o amigo Koliver com quem convive por muitos anos nas lides classistas.Realmente ele era tudo isso e muito mais. Parabéns aos autores.


sérgio dragão –
10/03/2010 – 10h57
Nas várias oportunidades em que pude assistir suas palestras em convenções/congressos pude sentir a capacidade e exemplo de um verdadeiro líder

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